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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dez motivos que fazem com que a África mereça sediar o mundial

Posted by cesaraialves@gmail.com On 05:28 No comments

O calendário está correndo mais rápido para os fãs de futebol. Há exatos 196 dias para o início dos jogos, já são conhecidas todas as seleções que conquistaram o direito de participar do maior evento esportivo do planeta. A novidade para a 19ª edição do mundial fica por conta do encontro teti-a-teti entre as duas Coréias. Pela primeira vez na história desde a separação socialista, que colocou o militar comunista Kim Il-Sung no poder da Coréia do Norte em 1948, as duas nações estarão juntas em uma competição internacional de futebol. Em 2010, livre de qualquer tipo de influência territorial capitalista ou socialista, ainda que por apenas 30 dias, a trégua prevalecerá no cenário de guerra travado diante do clima de intolerância e insolência criado junto à fronteira dos dois países. Uma oportunidade a mais para o mundo refletir na união dos povos enquanto, dentro do gramado, 736 “soldados” lutarão pelo título mais cobiçado da Terra: a Copa do Mundo.

“Na minha opinião, a Copa do Mundo da África será importante nesse processo”, afirma o quatro vezes campeão mundial, Mario Jorge Lobo Zagallo. Já para o sociólogo e Mestre em Cultura e Turismo, Vinícius José Ripol, “o futebol é uma das principais formas de interação social existente em todo o planeta. Dezenas jogam, milhares assistem ao jogo no estádio e milhões o veem pelas televisões. O futebol é o máximo que podemos tomar como exemplo de filho da globalização.”
Além das porções norte e sul da Coréia, também estarão presentes no sorteio da chave de grupos, a ser realizado no próximo dia 4 de dezembro na histórica Cidade do Cabo, as seleções de Honduras, México, EUA, Brasil, Paraguai, Chile, Argentina, Uruguai, Alemanha, Dinamarca, Espanha, Holanda, Inglaterra, Itália, Sérvia, Eslováquia, Suíça, Grécia, Eslovênia, Portugal, França, Costa do Marfim, Gana, Camarões, Nigéria, Argélia, Austrália, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Japão e Nova Zelândia. A 32ª seleção é a África do Sul, que tem sua vaga garantida por ser o país-sede da Copa.
Ao longo das 18 edições realizadas, o equilíbrio técnico entre as seleções tem marcado, sobretudo, o retrospecto dos times de dois continentes. Em 76 anos de história, o título esteve sempre entre as mãos de equipes europeias e sul-americanas. São nove vitórias para cada lado, uma estatística ruim para os torcedores sul-africanos que esperam pelo triunfo dos Bafanas-Bafanas em 2010. “A Europa com Itália, Alemanha e Inglaterra, juntamente com Brasil e Argentina, certamente terá uma superioridade com relação ao futebol africano”, analisa Zagallo. “Basicamente eu diria que Brasil, Inglaterra, Espanha e Alemanha são as favoritas ao título”, complementa o capitão do tricampeonato Carlos Alberto Torres.

Seja como for, indiferente a qualquer tipo de análise técnica, dentro de aproximadamente sete meses, 32 bandeiras das mais distintas partes do planeta tremularão na África do Sul. O grito de gol, em uma resposta à fome e ao estado de miséria predominante no continente africano poderá ser ouvido pelas arquibancadas de todo o mundo. Negros e brancos, judeus e palestinos e, porque não, brasileiros e argentinos, vão estar juntos durante 30 dias, para o mundo todo ver e ouvir. Uma competição que, em 2010, irá muito além das regras do jogo.
"Me parece que é uma questão unicamente política. A FIFA quer que a Copa do Mundo seja disputada na África”, teoriza Carlos Alberto Torres. É impossível contabilizar os lucros e custos, pois os efeitos econômicos indiretos e induzidos se afastam dos centros onde acontecerão os jogos, repercutindo em outras cidades e mesmo outros países do continente africano. A África tem duas opções que não são mutuamente excludentes: ou tentar esconder a pobreza, ou fazer dela um atrativo turístico”, opina Ripol.
Questões que, não por acaso, fogem do âmbito esportivo e fazem com que a Copa do Mundo na África do Sul seja muito mais do que o principal campeonato de futebol do planeta: “Recentemente, no 12th World Congress on Public Health, mais de 2400 profissionais da área de saúde pública se reuniram para debates sobre os desafios da saúde no mundo. Os especialistas chamaram atenção para o continente africano e seus índices crescentes de HIV/AIDS”, disse a médica sanitarista mestre em Saúde Pública Dra. Catherine Moura. Por trás das câmeras, atrás das linhas do campo, longe do enorme clima de maquiagem constituído na tentativa de provar a emergência da África do Sul, o fantasma da Aids, criado em um contexto marcado por outros problemas como a falta de infraestrutura básica e o alto índice de violência, toma conta da vida dos sul-africanos. Segundo levantamento apontado durante a Copa das Confederações de 2009 pelo diário sul-africano Daily Sun, um dos mais importantes do país, “uma em cada três mulheres, incluindo crianças com idade acima de 10 anos, são portadoras do vírus HIV.”
Por esta e tantas outras razões, a Copa do Mundo deve ser vista com outros olhos em 2010. Pensando nisso, fizemos um levantamento dos dez dos principais motivos que contribuem para que a África do Sul, mesmo diante da inquestionável falta de estrutura apresentada em sua rede hoteleira e sistema de transporte - bem como as questões de saúde pública - mereça a oportunidade de sediar o principal evento do planeta.

Ao longo dos últimos 70 anos, a África, assim como a Oceania, jamais recebeu a oportunidade de sediar um mundial da Fifa. A primeira Copa do Mundo foi realizada em 1930, no Uruguai. As demais competições foram organizadas pela Itália (1934 e 1990), França (1938 e 1998), Brasil (1950), Suíça (1954), Suécia (1958), Chile (1962), Inglaterra (1966), México (1970 e 1986), Alemanha (1974 e 2006) Argentina (1978), Espanha (1982), Estados Unidos (1994) e Coréia e Japão (2002).

Em 1948, a África do Sul mergulhou em um dos períodos mais revoltantes da história mundial. Condenado internacionalmente por ser injusto e racista, o Apartheid implicou uma série de mudanças no comportamento social do país, dividindo a África do Sul em uma nação para brancos (com todos os direitos civis) e negros (sem nenhum benefício jurídico). Por exatos 42 anos, os negros foram impedidos de frequentar ambientes públicos e obrigados a portar documentos especiais para que pudessem sair às ruas. Trens, restaurantes, calçadas, piscinas, praias e bibliotecas, entre outros, tornaram-se ambientes segregados. As leis proibiam ainda o casamento de raças mistas e incriminavam o relacionamento sexual entre brancos e negros. O Apartheid foi abolido na África do Sul somente em 1990 diante das pressões internacionais pelo presidente Frederik Willem de Klerk.

Nenhum outro nome sul-africano é mais conhecido que Nelson Mandela. Fiel opositor do regime do Apartheid, atende como advogado, ex-líder rebelde e ex-presidente da África do Sul. Absolutamente contrário a segregação de raças, é considerado ainda o principal representante do movimento anti-apartheid. Chegou a ser ativista, guerrilheiro e sabotador dividindo, em 1993, com o então presidente Frederik de Klerk, o Prêmio Nobel da Paz. Considerado terrorista pelo governo sul-africano foi preso por 28 anos em uma prisão de segurança máxima dentro da conhecida Robben Island, ilha que fica a 11km da Cidade do Cabo. Mandela conquistou ainda a maior vitória dentro cenário esportivo da África do Sul. Sua determinação e importância histórica consolidou a África do Sul como sede do mundial de 2010 em um trabalho de bastidores amplamente divulgado.

Em 2010 a África do Sul terá a chance de apresentar ao mundo definitivamente o não à discriminação racial. Uma oportunidade para mostrar às demais nações que também sofrem do mesmo mal, através de piadas ou atos mais hostis, a necessidade da união de todas as raças indiferente à natureza dos povos. Um momento para apresentar à sociedade o novo conceito vivido pela África do Sul, que por mais que ainda sofra a influência negativa dos fantasmas do Apartheid, caminha para um futuro onde negros e brancos poderão viver livres de qualquer tipo de contexto de discriminação racial.

A Copa do Mundo de 2010 será também uma oportunidade para a África do Sul, como representante das demais nações do continente africano, mostrar ao mundo a verdadeira realidade daquela que é considerada pelas Nações Unidas a região de maior estado de pobreza do planeta. De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano criado pela ONU para avaliar o bem estar de uma nação, a África ocupa todos os postos na lista dos 20 piores países do mundo. O mesmo estado de preocupação fomenta o Índice de Pobreza Humana, que leva em conta o número de mortes de recém-nascidos, percentagem de adolescentes com formação escolar básica, crianças abaixo do peso e quantidade de famílias que vivem com menos de 1 ou 2 dólares/dia.

Poucas nações no mundo possuem uma variação cultural tão grande quanto a África do Sul. São onze idiomas oficiais. O inglês, muito utilizado na região, é apenas a quinta língua mais falada em toda a porção sul-africana. As danças também marcam positivamente o país. Uma delas é conhecida pelo nome de “Disk Dance”, criado para o mundial de 2010, com o intuito de aquecer os bastidores do esporte. O “Disk Dance” consiste em uma atividade artística onde o participante, indiferente do local que esteja, se vê com uma bola imaginária nos pés e sai a fazer acrobacias. Outras danças também foram observadas durante a Copa das Confederações 2009. A mais curiosa chamou a atenção do público presente pela coreografia em massa. Centenas de pessoas subiam e desciam pelas arquibancadas sul-africanas ao som de um ritmo composto por batucadas durante os jogos. Muitas vezes os torcedores paravam de costas para a partida. Isso para não falar das vuvuzelas, que nada mais são do que as cornetas de plástico que diante da autorização da Fifa voltarão a estar presentes entre os torcedores.

Em 2010, a África do Sul terá a oportunidade de mostrar ao mundo toda a alegria e espírito de festa atribuída à nação sul-africana em sua cultura e religião. Maior exemplo não poderia vir de outro lugar: Bafana-Bafana. Um apelido carinhoso dado à seleção da África do Sul dirigida pelo técnico Carlos Alberto Parreira e que retrata bem o clima de Copa vivido pelo país. Um reflexo dentro do campo do comportamento das pessoas nas ruas, arquibancadas, bares e praças. A África do Sul deverá chamar a atenção do mundo com suas danças típicas, roupas coloridas e um folclore jamais visto na história das copas. Por esse aspecto, a África do Sul terá tudo para fazer dentro da maior naturalidade possível a Copa do Mundo mais alegre da história. A exemplo do que vem ocorrendo ao longo dos anos - em uma rara exceção a Copa do Mundo dos Estados Unidos, tida como a mais fria e sem graça do ponto de vista de comportamento extra-campo – povos de todo o planeta se reunirão em bares, praças e restaurantes para acompanhar aos moldes africanos a maior festa do futebol mundial. Cabe aos africanos manter o espírito de receptividade e alegria tão evidenciados através da celebração da vida de uma nação onde as pessoas acordam sorrindo indiferentes às dificuldades do dia a dia. Sem dúvida nenhuma, um excelente aquecimento para a Copa do Mundo do Brasil em 2014.

Poucos países no mundo possuem um estado de conservação ambiental tão rico quanto a África do Sul. Habitat natural de muitas espécies, incluindo os animais que pertencem ao chamado “Big Five”, tem no turismo selvagem uma importante fonte de renda, sobretudo diante da preservação de suas reservas, como ocorre no famoso Kruger National Park, considerado o maior Safári do planeta. Além de leões, leopardos, búfalos, elefantes e rinocerontes, a África do Sul apresenta ainda em seu território populações de baleias, golfinhos e pinguins dentro de uma grande variação de espécies. Por outro lado, vales nevados se formam nas proximidades de desertos e savanas. A África do Sul, indiscutivelmente, é um exemplo positivo de país onde a natureza ainda é respeitada.

A África do Sul é considerada o único país emergente do continente africano. Possui sua economia voltada a exploração de seus recursos minerais, como carvão, cobre, manganês, ferro, diamante e ouro. O urânio, utilizado também para a fabricação de bombas, fomenta parte de sua economia. Dados fornecidos pelo Consulado Africano no Brasil apontam ainda que a nação sul-africana ganhará com a Copa do Mundo de 2010 cerca de 130 mil empregos, o que contribuirá com aproximadamente 3 bilhões de dólares para o seu PIB. Outro bilhão de dólares é esperado somente com a arrecadação de impostos. Ainda conforme o governo africano, 350 mil turistas assistirão de perto o mundial. A estimativa é de que os visitantes gastem em torno de 1,3 bilhão de dólares.

Ao longo dos anos o futebol africano tem despontado no cenário internacional. A evolução da modalidade no país, conhecido pela força no rugby, tem se mostrado presente aos olhos do mundo. A própria seleção brasileira, considerada a melhor equipe do planeta de acordo com o ranking da Fifa, tem sido vítima da ousadia africana. Basta dizer que recentemente o Brasil perdeu o título do Campeonato Mundial de Futebol sub-20 para a seleção de Gana. Outras derrotas também foram assinaladas ao longo dos anos e marcaram negativamente a campanha brasileira nos jogos Olímpicos de Atlanta, com a derrota para a Nigéria, e em Sidney, com as vitórias da África do Sul e Camarões. Por mais que as seleções africanas ainda não estejam entre as favoritas à conquista da Copa do Mundo, é indiscutível o crescimento e aperfeiçoamento do futebol na África.

  Francisco de Assis iniciou sua carreira na Rádio Jovem Pan e trabalhou no Terra, Terceiro Tempo e Núcleo Globo de Televisão. Está ao lado da Seleção Brasileira de Futebol desde 2002 e acompanhará a equipe canarinho na Copa da África pelo Yahoo! Esportes. chiconacopa@yahoo.com.br - www.flickr.com/people/copadomundo/

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